Esqueça museus, galerias, bibliotecas, parques e praças. Em sua próxima viagem, experimente seguir a recomendação da argentina Mariana Enriquez, 52 anos, que garante que o ponto alto de qualquer viagem é uma visita aos cemitérios.
É lá, onde tudo acaba, que Mariana vê recomeços. E seu guia para esses inusitados passeios está em Alguém Caminha sobre o seu Túmulo – Minhas Viagens a Cemitérios (Intrínseca, 376 páginas). (Compre aqui)
Escritora que se destacou por sua impressionante produção relacionada ao terror – como as coletâneas As Coisas que Perdemos no Fogo, Os Perigos de Fumar na Cama e os romances Este é o Mar e Nossa Parte de Noite – Mariana desta vez foi buscar na não-ficção base para inspiração.
Alguém Caminha sobre o seu Túmulo foi lançado originalmente em 2014, e depois teve uma edição ampliada em 2021.
Um guia gótico e mórbido, o livro é resultado de quase três décadas de observação, uma tarefa iniciada quando Mariana era pouco mais que uma adolescente – mas já fascinada com o que os mortos teriam a lhe dizer. E foi ouvi-los.
O ponto de partida é o cemitério de Staglieno, em Gênova, que Mariana visitou em 1997. Um destino que não estava previsto no roteiro, mas que acabou lhe servindo como epifania: “Foi assim que me apaixonei por cemitérios,” escreve ela.
O capítulo, com o título A Morte e a Donzela, faz referência à peça teatral do chileno Ariel Dorfman, posteriormente filmada por Roman Polanski. Mariana faz outra referência a um exemplo cultural na visita ao cemitério de Nova Orleans, que tem o título de A Lua sobre Bourbon Street (Moon Over the Bourbon Street, uma canção de Sting) e onde ela conta ter ficado horas em busca de vestígios de vodu.
Depois dessa abertura, a autora elenca outros 24 campos-santos, alguns localizados em lugares tão distintos quanto Cincinnati, Edimburgo e Havana.
Existem ainda relatos sobre cemitérios famosos como o de Montparnasse, em Paris (onde estão enterrados Charles Baudelaire, Samuel Beckett, Julio Cortázar e Marguerite Duras), e outros carregados de simbolismo, como o Cemitério Judaico de Praga.
Os 24 cemitérios descritos são apenas uma pequena parte do roteiro estipulado por Mariana, que garante já ter visitado mais de uma centena de necrópoles.
Países que culturalmente veneram a morte, como o México, também são listados, com o Panteón de Belén e o Panteón de Mezquitán, ambos em Guadalajara.
O Brasil, que poderia contribuir ao rol com – quem sabe? – o Cemitério São João Batista (com seus escritores, músicos, atores e políticos) ficou de fora.
A autora sustenta que a morte pode ser vista pelo lado estético. Assim, seu olhar muitas vezes é atraído pelo que há de belo e grandioso – e, novamente citando o cemitério de Staglieno, ela diz: “O impacto do cemitério é avassalador”.
Nascida em 1973 e criada sob o signo da ditadura militar – em que as mortes e desaparecimentos faziam parte das narrativas que ouviu desde criança – Mariana pode ter encontrado nesse passado o seu fascínio por um tema tão árido e sombrio.
Dos 24 lugares escolhidos, sete, não por acaso, ficam na Argentina. Nesses casos, os cemitérios funcionam como um arquivo histórico. “Sempre que um turista, visitante ou estrangeiro em geral me pergunta aonde ir em Buenos Aires, sugiro sem titubear o cemitério da Recoleta,” explica Mariana. “Aqueles que sabem as maravilhas que se podem encontrar em uma necrópole vão entusiasmados.”
Ao se debruçar sobre o tema do livro, a autora mesclou doses iguais de sensibilidade e objetividade, e evitou eufemismos como “passou desta para melhor” ou “nos deixou.” Os cemitérios são tratados com solenidade, mas também com o máximo de praticidade que a ocasião exige.
Segundo o relato de Mariana, muitas vezes os melhores cemitérios são aqueles que nos falam de pessoas que não conhecíamos – e nos deixam chateados por não termos tido esta chance em vida.
Dessa maneira, um cemitério, como não consegue explicar o absurdo da morte, faz com que a vida seja consagrada.
Ainda que de maneira condensada e resumida, todo cemitério é quase sempre uma exaltação, principalmente pela capacidade de buscar um sentido em tudo o que foi vivido.
Ao final de Alguém Caminha sobre o seu Túmulo, Mariana Enriquez oferece uma nova lista: a dos cemitérios que pretende conhecer antes de morrer.
Como num time, são onze os escalados. E nessa seleção macabra e pouco convencional, a autora destaca a Necrópole do Cairo, no Egito. Não apenas um cemitério, o lugar é um bairro, com “aparência favelizada”, conta ela, e que há mais de sete décadas, em constante mutação, vem recebendo não apenas mortos, mas cada vez mais vivos. Um convívio tão estranho quanto permanente.
