Os fundadores da Genetica Bioscience – uma biotech fundada há 23 anos em Chapecó, Santa Catarina – acabam de vender o controle da empresa ao Archimed Group, uma gestora de impacto europeia com € 8 bilhões em ativos sob gestão.
A Genetica fabrica produtos biológicos à base de microrganismos – como bactérias, leveduras e fungos – que são usados no tratamento de efluentes de grandes indústrias, incluindo nomes como BRF, JBS, Minerva e Vigor.
Esses produtos são aplicados na água contaminada que é gerada pelos processos industriais dessas companhias – ajudando na eliminação de matéria orgânica, gorduras, óleos e outros contaminantes.
Os produtos da Genetica complementam o tratamento dos químicos tradicionais (como a soda cáustica e os coagulantes) que fazem uma primeira limpeza mas ainda não são capazes de eliminar toda a matéria orgânica da água.
Antes dos biológicos, essa água tinha que ficar ‘putrefando’ por mais de um mês até eliminar a matéria orgânica e poder ser despejada novamente nos rios. Os biológicos atuam como
bolsters, acelerando esse processo em várias semanas.
A aquisição da Genetica é o primeiro investimento na América Latina do Archimed – que é focado em saúde e tem sede na França. O fundo quer levar os produtos e a tecnologia da Genetica para os EUA e Europa.
O valor do investimento não foi revelado, mas a Archimed está comprando uma participação majoritária, com os três fundadores – os brasileiros Anderson Cácio Bernardi, Ivan Sganderla e Reginaldo Sganderla – continuando como sócios e à frente da operação.
O aporte da Archimed foi 100% secundário e encerrou um processo que durou cerca de dois anos.
“Sempre crescemos organicamente, e a Genetica sempre foi um negócio muito interessante para nós financeiramente,” Anderson, o co-fundador, disse ao
Brazil Journal. “Mas começamos a conversar com o mercado em 2024 porque tínhamos essa visão de criar uma plataforma global de biotecnologia.”
Ele disse que os fundadores escolheram a Archimed “não porque eles tivessem oferecido o maior cheque ou
valuation, mas porque eles vão poder nos ajudar nesse sonho que temos de internacionalizar a empresa.”
O plano da Genetica é dedicar os próximos 12 meses a uma expansão mais forte no Brasil – já que ela ainda é muito concentrada na região Sul – e depois iniciar a internacionalização.
O primeiro destino será os Estados Unidos, seguido da Europa (onde a estratégia de
go to market será um pouco diferente).
Nos EUA, a Genetica vai focar no mesmo mercado onde já é líder no Brasil: o tratamento de efluentes de grandes indústrias. Na Europa, o foco será na produção de biogás com a matéria orgânica das estações de tratamento – uma demanda crescente na região dada sua dependência do gás russo.
“O mercado americano tem o dobro do tamanho do brasileiro em estações de tratamento, e os tíquetes são 10x maiores pela questão do câmbio mas também porque é um mercado mais novo,” disse Anderson. “Lá tem alguns
players já relevantes, mas que não têm o mesmo nível de verticalização, portfólio, acompanhamento e assistência técnica da Genetica. A maturidade das empresas está muito aquém da nossa.”
A Genetica nasceu da união de Ivan – um engenheiro químico apaixonado pelo assunto e que conhece de cabo a rabo o funcionamento de uma estação de tratamento de efluentes – e Anderson, um executivo com experiência em negócios.
Nos anos 2000, os dois tiveram a mesma ideia: importar produtos biológicos do exterior, manipulá-los no Brasil e vender para indústrias que precisam tratar seus efluentes.
No início cada um tocava sua empresa, até que uniram forças – verticalizando o negócio com a fabricação de seus próprios biológicos e chegando a um faturamento de cerca de R$ 100 milhões estimado para este ano.
“Foi em 2008 que começamos a visitar várias universidades e a fermentar nossos primeiros produtos biológicos líquidos: biológicos com bacilos, bioestimulantes complementares, e biorremediadores,” disse Ivan, o outro fundador e CEO. “O tratamento de efluentes é quase como uma sopa. Às vezes falta sal, ou tempero disso e daquilo. Então você tem que ter um portfólio grande de produtos para ir complementando o tratamento e gerar o efeito que você quer.”
O trabalho da Genetica é extremamente personalizado. Assim que ela começa a atender um novo cliente, a biotech coleta a água da estação de tratamento e faz uma análise em seu laboratório.
“Fazemos como se fosse um raio-x da água para entender o problema e os contaminantes que ela tem. A partir disso, desenvolvemos uma receita com a dosagem de aplicação de cada um dos produtos,” disse Ivan.
Esses produtos passam a ser enviados semanalmente ao cliente, mas a Genetica também ajuda na aplicação, alocando um consultor para garantir que o tratamento está sendo feito corretamente.
A Genetica opera no mesmo mercado da Superbac, a empresa investida do Temasek e de um fundo de
private equity da XP que chegou a negociar uma fusão com um SPAC no passado – antes de entrar com um pedido de recuperação extrajudicial em 2024.
Anderson diz que há diferenças grandes entre as duas companhias – e que os problemas da Superbac começaram quando ela decidiu migrar do saneamento para o agronegócio, sofrendo posteriormente com a retração da demanda por fertilizantes biológicos.
“Além disso a Superbac sempre se posicionou como uma empresa de produto. Traziam cepas de fora, reidratavam, envasavam e vendiam. Mas era uma empresa só de produtos. A gente construiu nossa companhia em cima do problema, do entendimento de como funciona uma estação de tratamento e da visão de entregar uma solução completa,” disse ele.
O investimento da Archimed foi acompanhado pela Rise Investments, uma gestora brasileira de impacto que ficou com uma participação minoritária do negócio.
A RFA Capital assessorou a Genetica, que teve aconselhamento jurídico do Demarest Advogados.