Maputo, 20 Out (AIM) – A Organização Mundial da Saúde (OMS) e o Banco Mundial alertam que a crise climática agrava as desigualdades no acesso e na prestação de cuidados de saúde em Moçambique, com impactos mais acentuados sobre as populações vulneráveis, estimando que a inacção perante os riscos climáticos poderá custar cerca de 11 mil milhões de dólares ao sistema de saúde.
O alerta foi lançado hoje, em Maputo, durante a III Conferência sobre o Impacto das Mudanças Climáticas na Saúde Humana, que decorre de 19 a 20 de Outubro, com a participação de representantes do Governo, parceiros de cooperação, investigadores e profissionais de saúde.
A representante da OMS em Moçambique, Nélida Cabral, afirmou que o país regista um aumento de casos de malária e doenças diarreicas associado a fenómenos como ciclones, inundações e calor extremo.
Segundo a responsável, estes impactos afectam de forma desproporcional as populações mais vulneráveis, agravando as desigualdades existentes.
Cabral referiu que, no âmbito do 14.º Programa Geral de Trabalho da OMS, a organização defende o reforço de sistemas de saúde mais resilientes, equitativos e ambientalmente sustentáveis, em alinhamento com o Plano Estratégico do Sector da Saúde 2026-2035 e os objectivos da cobertura universal de saúde.
A representante da OMS salientou ainda que a resposta aos riscos climáticos exige coordenação entre os sectores da saúde, ambiente, agricultura, água, educação, planificação e finanças, tendo em conta a interdependência entre a saúde humana, animal e dos ecossistemas.
Entre as prioridades apontadas pela organização estão a utilização da investigação na formulação de políticas públicas, a integração dos riscos climáticos na planificação e no financiamento do sector da saúde e o reforço das capacidades dos serviços distritais e das comunidades.
Por sua vez, Tamer Rabie, responsável global pelos projectos de Clima e Saúde no Banco Mundial, afirmou que Moçambique enfrenta impactos recorrentes de ciclones, inundações e temperaturas elevadas, que afectam as condições de vida das populações e o funcionamento dos serviços de saúde.
“Famílias perdem casas, crianças deixam de ir à escola, pacientes não chegam às unidades quando as ruas estão fechadas e o tratamento é interrompido”, declarou.
Rabie destacou a existência de um plano nacional de investimentos para proteger o sector da saúde dos efeitos das mudanças climáticas, elaborado pelo Ministério da Saúde, em coordenação com a Direcção de Planificação e o Instituto Nacional de Saúde, com o apoio do Banco Mundial e do Fundo Global.
De acordo com o responsável, a inacção perante os riscos climáticos poderá representar um custo de cerca de 11 mil milhões de dólares para o sistema de saúde, numa estimativa que não inclui perdas de produtividade nem impactos económicos de longo prazo.
Em contrapartida, o plano de investimentos requer cerca de 234 milhões de dólares. Segundo Rabie, cada dólar aplicado poderá gerar sete dólares em benefícios para a saúde e dez dólares quando considerados os benefícios económicos e sociais.
O plano prevê ainda evitar cerca de 13 mil mortes e mais de 1,6 milhões de anos de vida perdidos.
O responsável explicou que o reforço da resiliência do sistema de saúde implica assegurar o funcionamento das unidades sanitárias durante eventos extremos, incluindo a disponibilidade de profissionais, medicamentos, electricidade e água.
Segundo Rabie, o plano prevê 2027 como fase de preparação e o período de 2028 a 2032 para a implementação integral. O responsável defendeu igualmente a criação de um Comité Nacional para o Clima e Saúde, acompanhado de um secretariado, bem como o alinhamento dos parceiros de cooperação em torno de um único plano nacional.
Acrescentou que o Banco Mundial financia um projecto de 201 milhões de dólares destinado à emergência, preparação, resposta e resiliência, incluindo intervenções relacionadas com profissionais de saúde, cadeias de abastecimento, vigilância de doenças e cuidados de emergência.
Dados apresentados na conferência por investigadores do Instituto Nacional de Saúde (INS) documentam os efeitos dos eventos climáticos extremos sobre as populações e as infra-estruturas sanitárias.
Um estudo intitulado Avaliação do impacto de alertas de eventos extremos na vigilância epidemiológica em Sofala, 2019-2024, da autoria de Anísio Almiro Bule, Paulo Notiço e Américo José, analisou sete eventos climáticos registados naquela província.
De acordo com o estudo, os sete eventos afectaram, no total, 2.038.498 pessoas e provocaram 848 óbitos, segundo a soma dos dados apresentados para cada ocorrência.
(AIM)
Alex Zulu/pc
